Brasil é o Universo de Todos os Sons
Jovino Santos Neto entrevista ao jornal The Brasilians, New York, abril 2006
por Ivaldo Costa
Parceiro e aprendiz de um dos maiores nomes da MPB, Jovino Santos Neto deixou o Brasil para ensinar nossos ritmos no Cornish College of the Arts, em Seattle, WA. Portador de profunda e diversificada bagagem musical, ele mostra que aprendeu com o mestre Hermeto Pascoal a verdadeira essência da música, o que a torna universal. Recentemente, o músico lançou o disco “Roda Carioca”, um disco que lhe permitiu resgatar raízes e amigos.
TB: Por que o “Roda Carioca” é um disco especial para você?
JSN: Desde que vim morar nos Estados Unidos há 13 anos atrás, praticamente não fiz nenhum trabalho gravado no Brasil. Mantive meus olhos no país, volto praticamente todos os anos para lá tocar, mas a minha base de trabalho tem sido aqui, especialmente em Seattle, onde moro. Desde o início montei uma banda formada por músicos americanos em Seattle. Apesar de tocar também com alguns brasileiros aqui, atuo mais junto aos norte-americanos e o meu trabalho é todo baseado no desenvolvimento da música brasileira, como o samba, o baião, o maracatu, forró, frevo com os músicos daqui porque, de uma certa forma, gosto do “sotaque” deles. Quando os músicos são bons, não importa se têm “sotaque” pata tocar aquelas músicas porque, na realidade, coloca uma variação pessoal na música e não acho pior nem melhor do que nossos ritmos tocados por brasileiros; é simplesmente diferente e gosto dessa “cor” diferenciada. O meu trabalho até agora tem sido voltado para este grupo que montei aqui e do qual sou muito orgulhoso.
Entretanto, depois do pontapé inicial nesse trabalho que vem sendo desenvolvido muito bem, achei que seria uma boa hora de voltar ao Brasil e retomar os contatos com a base musical de lá porque são pessoas com quem sempre toco quando lá estou, como Marcio Bahia, Rogério Boterr Maio e outros grandes músicos, além do meu trabalho com Hermeto Pascoal, a fonte originária do meu desenvolvimento desde que comecei profissionalmente em 1977, ou seja, quase 30 anos trabalhando junstos e esse disco representa uma maneira de juntar esses dois ciclos de trabalho. Para mim é uma honra maravilhosa poder voltar à minha terra natal, que é o Rio de Janeiro, e o nome do disco, “Roda Carioca”, porque foi exatamente isso que imaginei: uma roda de samba, ou de choro, enfim uma roda de amigos onde batemos um papo super descontraído. Não é um disco que precisou de uma preparação minuciosa de meses de trabalho; a maioriadessas músicas foi composta quase que espontaneamente e a maoria aqui nos EUA, de uma forma solta, às vezes com alunos, em workshops ou acampamentos musicais. Assim as músicas possuem uma leveza e uma espontaneidade muito grandes. Com esse tipo de material, que não é muito arranjado, imaginei um trio ideal para começá-lo, formado por mim ao piano, Marcio Bahia na bateria, que é irmão do tempo de Hermeto Pascoal e tocamos juntos desde 1980, ou seja, 26 anos de estrada, e Rogério Botter Maio, com que toco há 10 anos, desde 1997, quando o conheci na Califórnia. Ele é paulista e sempre que vou ao Brasil a gente tocajuntos. Esse foi o início da roda.
O próximo passo foi chamar os convidados e fazer a festa. Liguei para a Joyce, da qual sou fã desde me entendo como gente, e dei sorte dela estar no Brasil nessa época porque toda a gravação foi feita em três dias, onde tudo teriaq de acontecer, ou seja, uma janela que se abriu e fechou. Conheci o Hamilton de Holanda por intermédio do Marcio Bahia, ele é de Brasília, um virtuoso bandolinista e uma pessoa maravilhosa e através deste, conheci Gabriel Grossi, também de Brasília, um gaitista genial, e o violonista Marcos Amorim, que havia gravado um disco que me foi apresentado e gostei muito do trabalho dele e resolvi convidá-lo também. Para completar, Fabio Pascoal, filho de Hermeto Pascoal, que é percussionista também, e, é claro, o próprio Hermeto, que é meu pai musical e não podia ficar de fora. Assim a roda ficou completa.
A participação de amigos e, talvez por este ser o caçula, tornam-me muito orgulhoso em mostrar esse trabalho, tanto no Brasil como aqui.
TB: Você sempre defende a música brasileira aqui. Como percebe a nossa musicalidade, afinal sendo cria de Hermeto Pascoal, que na minha opinião não é um músico brasileiro, mas universal, um cidadão do mundo, porque possui uma linguagem única e que poderia ser de qualquer lugar do planeta...
JSN: Concordo plenamente.
TB: Ao mesmo tempo que você tem Hermeto Pascoal como referência, você nasceu na terra do samba, ou seja, onde o samba reina, nos subúrbios cariocas e também tem uma experiência muito grande em uma série de outros ritmos. Por que você defende a MPB e seus ritmos específicos já que possui um leque amplo de opções?
JSN: Interessante essa pergunta, maravilhosa...voc6e foi ao cerne da questão. Veja bem, quando comecei a tocar, aos 12 anos, inciei com a música clássica, aprendendo piano. Quando tinha 14 anos, lá no subúrbio, comecei a ver shows do The Fevers, Lafaiete, Os Incríveis e outras bandas da região daquela época que imediatamente me levaram para o lado do rock’n roll e aos 15 anos era fascinado pelo rock, pelo blues, enfim pela música norte-americana além de ser vidrado nos Beatles e nos Rolling Stones. Não tinha a mínima conexão com a MPB, apesar de ter sido nascido e criado perto da quadra da Escola de Samba de Padre Miguel. Essa é a memória da minha infância, lembro-me dormindo e ouvindo no vento a batucada da bateria da escola e do outro lado da casa de minha mãe havia um terreiro de umbanda, com seus atabaques e tambores. Isso foi a minha infância: o santo baixando de um lado e a batucada comendo do outro. Isso estava se formado dentro de mim, mas eu desconhecia porque estava ligado no rock e no blues. Foi uma mistura muito interessante, porque a primeira coisa que fiz ao completar 18 anos foi vir para os EUA, onde me aprofundei no rock. Voltei ao Brasil e montei uma banda de rock progressivo e me liguei no rock progressivo ingl6es, influenciado pelo Yes e Emerson, Lake and Palmer, e tudo isso me deu um embasamento musical que não sabia direito onde ia dar, mas foram coisas que fui ajuntando pelo caminho. Foi como ajuntar as pedras que fui encontrando sem saber direito o que construir com elas. Munido desse arsenal de ritmos musicais que um dia iria usar e o que o Hermeto me deu, com quem comecei a tocar profissionalmente em 1977 – ele abriu a minha cabeça – estruturei minha base musical.
Sua característica de tocar uma música completamente sem barreiras, universal, mostru-me que poderia na realidade incorporar tudo aquilo que foi parte de minha bagagem, sem ter que necessariamente manter tudo em compartimentos separados ou seja, isso é jazz, isso é rock, isso é batucada...Ele mostrava com o trabalho dele, como mostra ainda hoje, que é possível passar por todas essas linguagens usando os ritmos como um pintor usa as cores. Você podeescolher fazer um quadro totalmente azul, mas também pode usar todas as cores que quiser. Então essa visão de uma música sem barreiras decorrente do meu aprendizado com o Hermeto, que continua até hoje, e com quei toquei por mais de 15 anos, abriu a minha cabeça para muita coisa que não sabia na área de composição, de arranjos, de liderança de um grupo, da relação interpessoalque acontece dentro de um grupo musical seja ele pequeno ou grande, desde um trio até uma orquestra ou banda de jazz. O meu aprendizado com ele ocorre em muitos níveis de compreensão.
Como tudo tem sua hora de maturação e o fruto maduro tem que ser colhido e sua semente plantada para gerar outra árvore, em 1992 senti que era a minha hora de me afastar do grupo, sem jamais me afastar da música ou do Hermeto, mas era chegada a hora de criar minhas sementes musicais porque sentiaessa coisa explodindo dentro de mim querendosair, foi quando percebi que necessitava de um outro espaço para externar aquela música. Foi por isso que fui para em Seattle. Pode parecer engraçado, mas Seattle tem muita afinidade com o Rio porque é uma cidade que tem montanha, muito verde e muita água, e me lembra muito Nova Friburgo, com aquele friozonho, a neblina, a garoa; me sinto conectado até hoje. É muito comum a pessoas mudarem de país e perderem suas raízes, mas no meu caso não sinto que isto tenha acontecido. Na realidade, minhas raízes ficaram e;ásticas, se chego ao subúrbio do Rio, abro minha mala, pego logo minhas sandálias e vou andar de trem, como se tivesse saído de lá ontem.
O Egberto Gismonti uma vez me perguntou: “Como você consegue permanecer tão brasileiro? Seu trabalho é tão carioca e você morando em Seattle. Quando morei fora perdi essa conexão e tive que voltar para resgatá-la”, confessou. Comigo aconteceu exatamente o oposto. Tudo aquilo que era raiz, que era tradição na música brasileira e eu não tinha muito conhecimento, passei a ter morando em Seattle. Uma das primeiras coisas que passei a fazer
foi, após estudar regência e passar a lecionar no Cornish College of the Arts, foi me embasar muito mais acerca da história da música brasileira e de suas raízes para poder falar com propriedade. E tudo aquilo que o Hermeto me deu na parte musical, que foi me mostrar o samba, baião, maracatu, xote, enfim, comecei a estudar a fundo, li as biografias de Pixinguinha, Tom Jobim, e todas as fases da MPB, o surgimento das modinhas, do lundu, estudei Chiquinha Gonzaga, Joaquim Antonio Callado e hoje me sinto como um elo de uma corrente que começou há 500 anos. Não importa se estou em Seattle ou no Brasil, posso estar em qualquerlugar porque essa conexão é fortíssima. Hoje tenho o maior orgulho de chgar para os meus alunos e dizer: Você não sabe quem é Pixinguinha? Então você vai saber e daí passo a falar do Pixinguinha, do Villa-Lobos, do Jobim, do Hermeto e mostrar essa riqueza da música brasileira da qual muito me orgulho, e ao mesmo tempo que faço isso, aprendo mais sobre ela. Assim, atesto cada vez o que disse o Hermeto, que nossa música é universal e o Brasil é o universo de todos os sons.
TB: Poderíamos então dizer que enquanto você morava no Rio a música brasileira lhe chamava mais atenção, e em Seattle, quando você se tornou um músico internacional, a MPB passou a ser seu foco. Ou seja, houve uma inversão de valores?
JSN: Exatamente. De uma certa formas, tenho uma personalidade mercurial. Sou do signo de Virgem, que é regido por Mercúrio, e tenho toda essa coisa da mensagem, do leva e traz, da comunicação que para mim é muito importante. Adoro falar aqui sobre o que vem de lá, e no Brasil sobre o que vem daqui.
TB:Indo além nesse tema, voc6e como um estudioso da nossa música, como está vendo a trajetória da MPB hoje. Às vezes tem-se a impressão que houve um decréscimo de qualidade. Isso é verdade?
JSN: Se você olhar sob o ponto de vista da música comercial, uma das coisas mais difícieis para mim no Brasil é comprar um CD. SE você vai às lojas só encontra trilhas de novelas ou o pior do que é feito aqui nos EUA. Nesse ponto você tem razão. O que toca nas rádios ou é comercialmente vendável nas lojas é muito pobre, mais pobre hoje do que quando morava lá. Na minha época, ouvia rádios e tinha grande variedade. Era possível ouvir-se jazz, rock e os diferentes ritmos da MPB. Hoje isso não existe mais, essa variedade acabou.
Por outro lado, o que é muito positivo, há uma geração de músicos jovens no Brasil que promete muito e que tenho a alegria de ter vários deles como convidados nos meus discos, como por exemplo, Gabriel Grossi, Hamilton de Holanda e o pessoal que toca na Itiberê Orquestra Família, todas as crias do Clube do Choro de Brasília, que é fantástico, o pessoal do Tira Poeira, do Quatro a Zero, de São Paulo, enfim, todas as vezes que vou ao Brasil vejo músicos jovens, na mesma idade de quando comecei e tocando muito melhor do que eu tocava na época. Nesse ponto vejo uma melhoria, a progressão e evolução da nossa música. Agora, isso não necessariamente tem uma boa saída comercial da mesma forma que tem o resto, mas isso acontece também aqui nos EUA.
Entretanto, há uma valorização da qualidade aqui, quando meu disco anterior, “Canto do Rio”, recebeu a indicação para o Grammy Latino fiquei muiot orgulhoso porque foi resultado de uma gravadora pequena, independente. Existe uma aceitação muito grande, onde faço diversos trabalhos junto a universidades de diversos locais nos EUA, aonde sempre sou convidado e reconhecido. Com isso me sinto como um plantador de sementes. Inclusive ajudei a montar na Califórnia grupos de música brasileira formados apenas por norte-americanos. Na realidade, essas pessoas entenderam a essência da música e se ela têm ou não sotaque isso não importa, porque dentro do Brasil existem diferentes sotaques, como o forró que é tocado em Alagoas é diferente do da Bahia ou de Minas. O Brasil possui uma grande riqueza cultural, não somente na música, mas nas suas cores, sua culinária, enfim, o Brasil possui uma variedade enorme e quanto mais a descubro, mais fascinado fico. De volta ao meu lado mensageiro, me sinto como aquele que propaga sementes por diferentes lugares e, às vezes, crescendo em um outro lugar, com solo, água e luz diferenciados, elas vão dar frutos também diferentes, mas ligados pela mesma raiz que a música tem no seu lugar de nascença. Quanto mais estudo a música brasileira, descubro que quanto mais pura ela é, menos pura ela é, ou seja, possui elementos que vieram da Europa, da África e das Américas que estão se misturando e que chamamos de música brasileira.
TB: Tem uma questão que percebo incomodar os músicos que atuam fora do Brasil. mesmo que alcancem sucesso aqui, na Europa ou Ásia, eles não são reconhecidos no Brasil. Como você vê isso?
JSN: Vou ao Brasil anualmente e sempre toco, mas percebo que a coisa mais difícil é fixar compromissos no país. Lá eles decidem em julho quem vai tocar em agosto e isso torna tudo muito mais difícil porque envolve organização de tempo, compra de passagens, enfim, sempre trabalho com uma incerteza muito grande, o que não ocorre aqui. Agora, quanto a fazer sucesso, pergunto: o que é o sucesso? vender 10 ou 100 mil discos ou tocar numa sala onde todos que foram lá te prestigiar saem sentindo-se recompensados e tocados pela música que ouviram? Nesse sentido me sinto um grande sucesso e tenho o consolo de saber que a maioria das pessoas que gosto de ouvir estão no mesmo plano, ou seja, não tocam nas rádios nem são campeões de vendagem. Pensando assim, estou em boa companhia.
TB: Exatamente. O que faz sucesso no exterior, na sua maioria, é bossa nova ou suas derivações. E isso represnta uma música mais elaborada. Quando eles voltam para o Brasil, esses artistas se deparam com o problema que já existe lá, ou seja, eles estão tocando um tipo de música que não toca nas rádios, ou seja, esse é o problema?
JSN: Sim, mas quando toco no Brasil vejo as pessoas muito interessadas na minha música. Elas sempre elogiam quando têm a oportunidade de me ouvir tocar.
TB: Elas teriam uma “saudade musical”?
JSN: É verdade. Toquei no ano passado em Santa Teresa e senti exatamente isso.
TB: Quer dizer que não são os músicos que atuam fora que não fazem sucesso no Brasil, mas o tipo de música que eles tocam aqui fora que não tem mais espaço na mídia do Brasil?
JSN: Exatamente. Você não vai ouvir nossa música na televisão ou nas rádios, mas as pessoas que vão ver meu show adoram, elas vêm e a sente sente uma atração linda, com elas cantando junto nossas músicas, curtindo o som. Ou seja, você tem, e por outro lado, não tem. E isso fica muito difícil de organizar. É necessário um jogo de cintura muito grande e uma paciência de Jó.
TB: Vamos voltar às suas origens. Como foi essa passagem que me pareceu repentina, de futuro e promissor biólogo para se tornar um músico especializado nos sons do Brasil?
JSN: Sempre gostei de tocar, desde criança, mas também sempre fui voltado para essa coisa da ciência, das explicações e com certeza estava me programando para virar um cientista e viver dessa maneira. Gostava muito de acampar quando jovem e ficava fascinado pela diversidade da vida no Brasilm dos seus animais e plantas, e isso me chamou a atenção e a biologia foi o jeito de me apropriar disso. Mesmo quando estava estudando biologia no Canadá, me especializava em biologia tropical, com planos de doutorado sobre a Amazônia, através do Instituto de Pesquisas da Amazônia. Esse era o plano, até que esbarrei com o Hermeto Pascoal por acaso. Ele foi morar num bairro vizinho ao meu e um amigo que sabia onde ele morava me apresentou. Fui lá não para tocar com ele, mas para conhecê-lo porque era fã do seu trabalho. Como adorava o que ele fazia, durante a visita ele convidou-me para tocar com ele na sexta-feira (a visita era no domingo). Estava me preparando para a prova do mestrado na semana seguinte e fiquei abestado com o convite, gaguejando sem responder. Ele me disse para voltar no dia seguinte e ensaiar com ele. Ao tocar com ele, percebi que tudo aquilo de que eu gostava, aquela diversidade que me atraía para a biologia estava presente na música também. Como amava aquela diversidade e aquela riqueza, abriu-se um caminho novo para mim que até então não havia percebido porque minha carreira estava definida, seria pesquisador e provavelmente acabaria vivendo no meio da floresta convivendo com bichos e plantas. De repente estava trabalhando com um cara cuja música tinha tudo a ver com isso, ela é orgânica e fortemente influenciada pela natureza. Daí após anos permanecia ali, gravando com ele, tocando músicas com os sons dos animais, das florestas, incluindo tudo isso gravando os sons das florestas. Como você mesmo ressaltou no início, são dois caminhos que aparentemente não têm nada a ver um com o outro, uma bifurcação na estrada que levava a diferentes caminhos. Fiquei muito confuso na época, porque iria abandonar uma coisa da qual gostava muito, mas como todas as grandes decisões que tomei na minha vida nãosabia muito bem porque as estava tomando, sempre tive uma intuiçãomuito grande, e ela dizia que não devia parar para pensar muito e assim decidi enveredar pela música. Foi como um trem passando, não dava para ficar pensando se iria tomá-lo ou não porque corria o risco de perdê-lo.
Até mesmo a saída do Grupo do Hermeto e a mudança para Seattle foram assim, somente muito depois é que fui ter consciência do motivo da minha vinda. Somente depois que vivemos é que ppodemos colocar as coisas vividas em uma perspectiva histórica e pessoal para encontrar o sentido da nossa vida. Hoje gosto muito de pensar nestas coisas, mas na época não tinha a mínima consciência do que iria acontecer. Foi como tatear no escuro, mas por outro lado, nuncative medo de chitar o pau da barraca e partir para outra.
TB: Quantos discos você já tem gravados?
JSN: Com o meu grupo são três: “Caboclo”, lançado em 1997, “Ao Vivo em Olympia”, que saiu em 2000 e o “Canto do Rio”, em 2003 que foi indicado para o Grammy Latino. Esses foram gravados com o meu grupo de Seattle. Além disso, o “Balaio”, gravado com o Richard Boukas, que saiu em 2000, e tenho também um duo com o bandolinista Mike Marshall tocando só músicas do Hermeto, chamado “Serenata”, que saiu em 2003 pela Adventure Music, além da participações em vários discos como arranjador, músico e compositor, além de atuar na área de música de câmara, de música clássica, porque a visão universal da música do Hermeto me permite fazer isso. Não tenho o mínimo problema em trabalhar com orquestras sinfônicas, quartetos de cordas ou grupos de câmara. Recebo muitas encomendas para criar música de câmara ou orquestral. Para mim, não existe divisão entre música clássica, popular ou jazz, porque as notas estão lá compondo a música e o restante são apenas rótulos que estão do lado de fora da música. Essa liberdade abre muitos caminhos e gosto de mantê-la desse jeito. esse tipo de trabalho é muito gratificante porque vem de um lugar que é o Brasil, o universo de todos os sons. Tenho muito orgulho de ser um arauto da MPB nos EUA, como também o tenho quando vou ao Brasil e mostro o que estou fazendo aqui. Em síntese, o que estou fazendo é mostrar a essência de cada ritmo e o músico, com sua criatividade, pega tudo isso e faz sua própria releitura e interpretação.
TB: Na nossa entrevista está surgindo algo interessante. Como o bom jardineiro que você é, já que colocou nosso tema em nível de sementes, lecionar para você parece ser um pouco mais do que espalhar sementes, você realmente gosta disso, não?
JSN: Engraçado você falar isso, porque na realidade até o dia em que saí do Brasil, nunca tinha dado aula para ninguém porque achava que sempre estava em fase de aprendizado, não me julgando habilitado a ensinar nada para ninguém. Quando cheguei aos EUA, ainda como aluno, as pessoas começaram a me perguntar e pedir para que eu demonstrasse como tocar determinados ritmos e não sabia o que dizer a elas. Quando finalmente percebi, já estava dando aulas e gostando muito de fazer isso, sentindo um prazer enorme. Foi quando percebi que o hermeto, quando ensinava a gente, também estava aprendendo conosco. Apesar dele ser um músico maravilhoso, não era bonzinho, não dava tudo de graça, porque quando o Grupo estava todo reunido doi a fase em que ele mais cresceu musicalmente porque tinha um grupo que executava tudo aquilo que ele imaginava, e isso possibilitou-lhe soltar-se cada vez mais como compositor e ousar porque tinha um grupo de músicos que confiava nele e essa confiança mútua é benéfica para todos os envolvidos. Descobri também que a evolução musical não tem fim, a música não tem fim, não é como a ciência onde você tem PhDs que tudo sabem. Uma criança pode sair da escola primária e tocar mais do que um músico que está praticando por mais de 30 anos. Ele pode descobrir uma coisa nova e seguir sua intuição, porque na música essa intuição pode vir em vários níveis, é a música que escolhe quem será inspirado e pode acontecer com uma pessoa de muita experiência ou sem experiência nenhuma. Ou seja, se você se rodear de pessoas que estão querendo aprender e expandirem-se você mantém a posição de aprender sempre, nunca permitindo a atitude complacente ou arrogante de ter aprendido tudo e perder o fio da navalha, que é a criatividade. Se você atua junto a pessoas que estão aprendendo a usar o fio da navalha, você acaba usando-os como uma pedra de amolar para afiar sua própria navalha. É altamente egoísta o processo de ensinar porque me garante sempre a posição como aluno, como aprendiz. É maravilhoso, e hoje em dia não trocaria essa vida de dar aula. Quando comecei era porque estava duro e tinha que fazer algum dinheiro, mas hoje tornou-se meu ideal e o ponto de partida para a composição de novas músicas.
TB: Você é um poço de sabedoria musical e tem muito a nos mostrar, mas há algo que gostaria de saber e que traga alguma luz à dimensão do seu caráter. Como você v6e o ser humano?
JSN: Puxa! Nesse sentido, posso dizer que sou um humanista. Gosto das pessoas, de estar perto delas. Existem muitos artistas que precisam de se isolar para o processo de criação, de fechar a interação social que pode ser muito desgastante. Para mim, isso não existe, porque vivo uma interação social praticamente todos os dias e, por outro lado, sou extremamente fascinado pelo isolamento da natureza. Se estou no meio do mato fico horas sozinho, sem precisar de ninguém, somente eu e a natureza, mas quando retorno, gosto muito de conversar e interagir com as pessoas, seja onde for. Sempre me permito aprender, seja com o político, o professor, o analfabeto. Acho que podemos aprender com todo mundo, com toda essa zorra que o mundo está passando com o fortalecimento das barreiras entre as pessoas e o fechamento de fronteiras, mas por outro lado abrindo-se através da Internet.
TB: O que você gostaria de dizer para a nossa comunidade aqui, afinal voc6e também é emigrante?
JSN: Existem dois tipos de imigrantes brasileiros: há os que saíram do Brasil e cortaram o elo. Tenho amigos aqui que nem falar português corretamente conseguem mais e, por outro lado, há brasileiros que vieram para cá, mas nunca deixaram o Brasil. Eles se cercam de brasileiros, só comem feijão com arroz e só falam português. Tanto um quanto o outro representam extremos que deveriam ser evitados, porque envolvem algum tipo de amputação. Ou você nega o que você foi ou nega o elo com a sociedade na qual está vivendo e começa a reclamar de tudo. O saudável é achar um meio termo nisso. Estou aqui, super ligado ao que era no Brasil e que faz parte de mim e também muiot feliz com as coisas maravilhosas dessa sociedade, como por exemplo o respeito aos direitos humanos e uma forma de retidão ainda encontrada facilmente nos EUA. É muito bom ter um guarda que o ajuda, um estranho que te dá uma força quandoseu carro quebra na estrada ou o ajuda a sair de uma confusão. Acho que os Estados Unidos enquanto sociedade partiram de uma premissa muito iluminadacom os valores do iluminismo representado por nomes comoBenjamin Franklin e Thomas Jefferson, grandes gênios da humanidade. A sociedade aqui é organizada em função dos direitos básicos do ser humano acima de suas condições de raça ou posição social. Enfim, uma boa forma de morar aqui é entender a história desse país e conscientizar-se do porquê das coisas serem desta forma aqui.
TB: Ou seja, melhor do que dividir e negar é somar. Não é necessário subtrair uma coisa da outra, mas somá-las buscando o crescimento pessoal.
JSN: Exato. As experi6encias serão diferentes para cada pessoa, mas a síntese sempre pode tornar-nos maiores e melhores.
TB: Existe algo a crescentar à nossa entrevista?
JSN: Só quero agradecer essa entrevista maravilhosa e profunda. Suas perguntas foram direto ao ponto de todas as coisas em que acredito. Quero desejar muito sucesso para este jornal e um grande abraço para a comunidade daqui, que é uma galera muito boa.